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sábado, 26 de novembro de 2016

nota mental




"You think you have lost your faith, but you have not. You have only
misplaced your faith and you can find it where it lays now deep in your  soul. And the way to do that is through the simple process of love. Love yourself, forgive yourself. You can't love and forgive other people". 

.Delilah, Florence + The Machine.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

bastidores

acabou, boa sorte
- sinto que essa musica vai virar referência, disse ele naquela voz de trovão que em nada condizia com a figura alta, magra, pálida, de dedos longos. uma mão quebrada que estralava.
ela descansava as pernas nervosas encolhidas entre as dele, espalhadas. nem parecia que dividiam suco de maracujá, capuccino e açaí na cafeteria há duas imensas horas. nem parecia que não se conheciam.
antes da chegada, houve batom vermelho, checada no cabelo e na calcinha que insistia em marcar o jeans. também teve desodorante, ajeitadinha na blusa que mais parecia um saco e olhos esbugalhados que a encaravam do espelho. tá tudo bem, mulher, eles diziam. não tá não.
uma hora inteira sentada retinha na cadeira da tapiocaria. a moça da loja nem dava atenção para a unica mesa ocupada, entre tantas vazias. o silencio perdurou uma hora inteira. ela dividia o riso ensandecido entre o livro e o celular.
bom, ele chegou. nossa, que alto. é pra levantar? uma perna, depois outra. deu tudo certinho. começa a tagarelar, talvez nunca tenha falado tanto na vida. nem rasgado tanto os lábios em sorrisos. olha só, ele até ria das piadas dela, ou da falta de jeito dela, ou das coisas que combinavam, ou das coisas que discordavam.
(é muito cedo para eu me empolgar?, devia a mente ter lembrado).
teve até referencia às conversas da madrugada. teve acordo de segredo em troca de mordida. teve casal sentado de ladinho no chão do shopping escutando trilha sonora de filme nerd. teve ele confessando coisas que não dizia a todo mundo. e ela oferecendo as bochechas, feliz.
e teve beijo -- ah, amigos, teve sim! com direito a óculos "se digladiando", nas palavras do rapaz. e queixo melado de batom vermelho, e idosos julgado a pouca-vergonhice-desses-jovens-de-hoje-na-parada-de-ônibus. eita, lá vem! me pede para ficar. não pede, amanha vou viajar.
ficou na janela do ônibus a vontade de mais. e, depois disso, uma semana inteira de madrugadas em silencio, no escuro.
não tem o que dizer, são só palavras.



Nunca estive só


Todo domingo eu fazia tudo  quase tudo igual. Acordava depois das onze da manhã, sob as reclamações dos meus pais. Ia até a área de serviço, coçava a orelha dos gatos. Via minha mãe aprontar o almoço e recusava o café da manhã. Sentada na cadeira de plástico ou encostada na mureta de cimento, observava meu pai dar banho no cão, cada dia mais magro.

Depois do almoço, sempre regado às divergências políticas entre painho e eu, corria para o quarto. Afundava na cama e em algum livro que retirava da estante vermelha; às 15h, cairia no sono ou mergulharia nas profundezas da internet.

Meu pai sempre dorme aos finais de semana. Invariavelmente. E minha mãe estava só, com a filha única sempre muda e o marido, assíduo visitante da terra de Morfeu. Ficava lá, na rede, a gastar o domingo inteiro frente à televisão. Ela, mulher que eu sei tão cheia de vida e acolhedora.

A verdade é que eu nunca vi a solidão da minha mãe. Nunca enxerguei porque não precisava. Porque enquanto eu me orgulhava de ser tão introspectiva e taciturna, o silêncio da minha mãe não tinha saída.

Nunca compreendi a solidão porque a minha era rodeada de gente que me amava. Porque nunca estive verdadeiramente só.

Agora, meses demais e quilômetros demais e saudades demais e ansiedade demais e incertezas demais, tudo é claro.

Ainda assim, como pedir desculpas. Como dizer: mãe, desculpa por ter te silenciado?

Longe, me agonio ao vê-la sem ter com quem conversar. Agora, quando sei que eu deveria estar lá.

Agora, quando eu sei...

"Mas sabe como é difícil encontrar, a palavra certa, a hora certa de voltar..."


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Advérbio de intensidade



Tudo é temporário.
Você sempre reclama dos meus advérbios de intensidade.
Como se nunca generalizasse nada.
Mas você sabe tanto quanto eu, afinal.
Que tudo é temporário.

Por mais que eu deseje, não consigo ver um futuro aqui. Um futuro aqui e com você. Não é por causa dos meus amigos, não é por causa da minha família, muito menos a saudade de casa. É que algo me diz que algo não está certo. Assim mesmo, pronome indefinido.

Na verdade, sei que EU não estou certa. Não estou completa. E enquanto não terminar de me construir, nada poderei construir com você.

Este é o maior problema de encontrar a pessoa certa tão cedo. Geralmente a gente não está pronta para ela.

Tudo bem, você dirá que eu nunca vou parar de mudar. Nunca vou ficar estável, pois eu sou essa mulher de mochila nas costas e sapatos sujos. Porque quando nada aqui está certo, eu tento ser em outro lugar.

Como te perguntei dia desses: se a gente se ama e tem certeza disso, por que choramos tanto?
Por que essa sensação de que algo vai nos separar?
Você prometeu me procurar em dez anos, caso isto aqui não dê certo. Por que isso me roeu ainda mais o estômago?

Porque no fundo, você e eu temos certeza. Temos certeza de que este tudo é temporário.





domingo, 14 de fevereiro de 2016

Decisões

Texto produzido para o curso de Letras Português da UFRN, em 02/2016.


A literatura é o único meio de encontrar a paz, independente do período de vida pelo qual eu esteja passando.

É nas palavras que busco conforto; sorrisos; mais perguntas para meu infindável estoque de dúvidas.

É nela que encontro suporte para enfrentar o mundo. É como se, ao encontrar uma boa história, eu também abrisse uma porta para a minha própria alma.

Sempre preferi ler ou escrever em lugares barulhentos. Alguns personagens me acompanham desde a infância, e lê-los é como encontrar velhos amigos em um bar, onde trocamos memórias e risadas às vistas.

Minha lembrança mais forte desta relação remonta ao hospital Varela Santiago, onde fiquei internada em tratamento a uma doença sanguínea, por volta dos cinco anos. Como eu não andava, as opções de diversão eram limitadas. Foi quando pus as mãos em uma máquina de escrever de brinquedo, vermelha com amarela, da qual não pude mais esquecer.

De lá vieram os sucessivos “mãe, me compra uma revistinha?”, sempre ao passar pelas bancas do centro da cidade. Na escola, como não havia biblioteca, a saída foi pedir à professora para ler as crônicas e tirinhas dos livros didáticos das séries superiores. Enquanto as crianças levavam brinquedos para a aula, eu voltava para casa com os meus em mochilas pesadas.

Desde os seis anos, as minhas próprias histórias começaram a se empilhar ao lado da cama em diários e poemas – impublicáveis, claro.

Embora minha família não seja de leitores, aos poucos consegui convencê-los de que me fariam mais felizes com livros do que com vestidos e bonecas. A infância passou a ter o cheiro dos sebos da Cidade Alta.

Mas foi ao ler “O mistério da fábrica de livros”, de Pedro Bandeira, que uma dúvida se acendeu: como e porque histórias encantam pessoas?

As perguntas me levaram ao jornalismo, que me mostrou a literatura no seu âmago: a vida. Esta nem sempre límpida como a ficção.

Só que histórias precisam de imaginação: precisam encantar pessoas, perturbá-las, questioná-las, mas nem sempre de forma direta, respondendo ao quê, quando, onde e porquê.

Ainda sem respostas ao “como a literatura fascina”, aportei no curso de letras. Quero descobrir como levar às pessoas todo o mundo que as palavras me apresentaram – e sem o qual eu não seria nada.

Ano passado, decidi tatuar a única coisa que sei que nunca mudará: um amor traduzido em sete livros no lado esquerdo do peito.

Meu objetivo é simples: apresentar às pessoas o livro que vai convencê-las a ler. Embora meu sonho pelo mercado editorial não esteja próximo – e ainda envolva um caminho tortuoso --, hei de me guiar pelas palavras de Sartre, em “O que é literatura” (1948): “O mundo pode muito bem passar sem a literatura, mas pode passar ainda melhor sem o homem.”


Atualização: Ingressei no curso de Produção Editorial, da UFSM. Um passo a mais na jornada.