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terça-feira, 25 de outubro de 2016

bastidores

acabou, boa sorte
- sinto que essa musica vai virar referência, disse ele naquela voz de trovão que em nada condizia com a figura alta, magra, pálida, de dedos longos. uma mão quebrada que estralava.
ela descansava as pernas nervosas encolhidas entre as dele, espalhadas. nem parecia que dividiam suco de maracujá, capuccino e açaí na cafeteria há duas imensas horas. nem parecia que não se conheciam.
antes da chegada, houve batom vermelho, checada no cabelo e na calcinha que insistia em marcar o jeans. também teve desodorante, ajeitadinha na blusa que mais parecia um saco e olhos esbugalhados que a encaravam do espelho. tá tudo bem, mulher, eles diziam. não tá não.
uma hora inteira sentada retinha na cadeira da tapiocaria. a moça da loja nem dava atenção para a unica mesa ocupada, entre tantas vazias. o silencio perdurou uma hora inteira. ela dividia o riso ensandecido entre o livro e o celular.
bom, ele chegou. nossa, que alto. é pra levantar? uma perna, depois outra. deu tudo certinho. começa a tagarelar, talvez nunca tenha falado tanto na vida. nem rasgado tanto os lábios em sorrisos. olha só, ele até ria das piadas dela, ou da falta de jeito dela, ou das coisas que combinavam, ou das coisas que discordavam.
(é muito cedo para eu me empolgar?, devia a mente ter lembrado).
teve até referencia às conversas da madrugada. teve acordo de segredo em troca de mordida. teve casal sentado de ladinho no chão do shopping escutando trilha sonora de filme nerd. teve ele confessando coisas que não dizia a todo mundo. e ela oferecendo as bochechas, feliz.
e teve beijo -- ah, amigos, teve sim! com direito a óculos "se digladiando", nas palavras do rapaz. e queixo melado de batom vermelho, e idosos julgado a pouca-vergonhice-desses-jovens-de-hoje-na-parada-de-ônibus. eita, lá vem! me pede para ficar. não pede, amanha vou viajar.
ficou na janela do ônibus a vontade de mais. e, depois disso, uma semana inteira de madrugadas em silencio, no escuro.
não tem o que dizer, são só palavras.



Nunca estive só


Todo domingo eu fazia tudo  quase tudo igual. Acordava depois das onze da manhã, sob as reclamações dos meus pais. Ia até a área de serviço, coçava a orelha dos gatos. Via minha mãe aprontar o almoço e recusava o café da manhã. Sentada na cadeira de plástico ou encostada na mureta de cimento, observava meu pai dar banho no cão, cada dia mais magro.

Depois do almoço, sempre regado às divergências políticas entre painho e eu, corria para o quarto. Afundava na cama e em algum livro que retirava da estante vermelha; às 15h, cairia no sono ou mergulharia nas profundezas da internet.

Meu pai sempre dorme aos finais de semana. Invariavelmente. E minha mãe estava só, com a filha única sempre muda e o marido, assíduo visitante da terra de Morfeu. Ficava lá, na rede, a gastar o domingo inteiro frente à televisão. Ela, mulher que eu sei tão cheia de vida e acolhedora.

A verdade é que eu nunca vi a solidão da minha mãe. Nunca enxerguei porque não precisava. Porque enquanto eu me orgulhava de ser tão introspectiva e taciturna, o silêncio da minha mãe não tinha saída.

Nunca compreendi a solidão porque a minha era rodeada de gente que me amava. Porque nunca estive verdadeiramente só.

Agora, meses demais e quilômetros demais e saudades demais e ansiedade demais e incertezas demais, tudo é claro.

Ainda assim, como pedir desculpas. Como dizer: mãe, desculpa por ter te silenciado?

Longe, me agonio ao vê-la sem ter com quem conversar. Agora, quando sei que eu deveria estar lá.

Agora, quando eu sei...

"Mas sabe como é difícil encontrar, a palavra certa, a hora certa de voltar..."