acabou,
boa sorte
-
sinto que essa musica vai virar referência, disse ele naquela voz de trovão que em nada condizia com a figura alta, magra, pálida, de
dedos longos. uma mão quebrada que estralava.
ela
descansava as pernas nervosas encolhidas entre as dele, espalhadas.
nem parecia que dividiam suco de maracujá, capuccino e açaí na
cafeteria há duas imensas horas. nem parecia que não se conheciam.
antes
da chegada, houve batom vermelho, checada no cabelo e na calcinha que
insistia em marcar o jeans. também teve desodorante, ajeitadinha na
blusa que mais parecia um saco e olhos esbugalhados que a encaravam
do espelho. tá tudo bem, mulher, eles diziam. não tá não.
uma
hora inteira sentada retinha na cadeira da tapiocaria. a moça da
loja nem dava atenção para a unica mesa ocupada, entre tantas
vazias. o silencio perdurou uma hora inteira. ela dividia o riso
ensandecido entre o livro e o celular.
bom,
ele chegou. nossa, que alto. é pra levantar? uma perna, depois
outra. deu tudo certinho. começa a tagarelar, talvez nunca tenha
falado tanto na vida. nem rasgado tanto os lábios em sorrisos. olha
só, ele até ria das piadas dela, ou da falta de jeito dela, ou das
coisas que combinavam, ou das coisas que discordavam.
(é
muito cedo para eu me empolgar?, devia a mente ter lembrado).
teve
até referencia às conversas da madrugada. teve acordo de segredo em
troca de mordida. teve casal sentado de ladinho no chão do shopping
escutando trilha sonora de filme nerd. teve ele confessando coisas
que não dizia a todo mundo. e ela oferecendo as bochechas, feliz.
e
teve beijo -- ah, amigos, teve sim! com direito a óculos "se digladiando", nas palavras do rapaz. e queixo melado de batom
vermelho, e idosos julgado a
pouca-vergonhice-desses-jovens-de-hoje-na-parada-de-ônibus. eita, lá
vem! me pede para ficar. não pede, amanha vou viajar.
ficou
na janela do ônibus a vontade de mais. e, depois disso, uma semana
inteira de madrugadas em silencio, no escuro.
não tem o que dizer, são só palavras.
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