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sábado, 17 de agosto de 2013

2507 km.

Muitas vezes – na maior parte do tempo, confesso-,  eu queria que os dias fossem só um sonho deturpado. Desejo acordar em casa, entre os lençóis quentinhos e a cortina com estampa de bonecas que cobre a janela; pelo canto dos olhos, espiar as horas no pequeno relógio verde. Ainda cedo. Meus olhos passeariam pelo quarto... pelo violão, o armário de livros, os rostos felizes que me sorriem dos porta-retratos... Então, levanto. Corro para o banheiro, tomo um café preto e como uma torrada quentinha com meus pais; ouço miados e troco a água dos gatos, faço festinha nos cachorros. Saio atrasada e, por pura sorte, pego o ônibus ainda na parada. Enfrento o engarrafamento da avenida Moema Tinoco até a ponte Newton Navarro. Desço na Ribeira, velha de guerra, com seus peixes, muros grafitados e bitucas de cigarro. Caminho até o jornal, pego mais um cafezinho na portaria e me dou por satisfeita ao notar que, novamente, fui a primeira a chegar.

Queria, às vezes, ser de novo aquela menina acostumada a ler livros e brincar no balanço da quadra às duas da tarde.


Saudades de casa.