Muitas vezes – na maior parte do tempo, confesso-, eu queria que os dias fossem só um sonho
deturpado. Desejo acordar em casa, entre os lençóis quentinhos e a cortina com
estampa de bonecas que cobre a janela; pelo canto dos olhos, espiar as horas no
pequeno relógio verde. Ainda cedo. Meus olhos passeariam pelo quarto... pelo
violão, o armário de livros, os rostos felizes que me sorriem dos
porta-retratos... Então, levanto. Corro para o banheiro, tomo um café preto e como uma torrada quentinha com meus pais; ouço miados e troco a água dos gatos, faço
festinha nos cachorros. Saio atrasada e, por pura sorte, pego o ônibus ainda na
parada. Enfrento o engarrafamento da avenida Moema Tinoco até a ponte Newton
Navarro. Desço na Ribeira, velha de guerra, com seus peixes, muros grafitados e
bitucas de cigarro. Caminho até o jornal, pego mais um cafezinho na portaria e
me dou por satisfeita ao notar que, novamente, fui a primeira a chegar.
Queria, às vezes, ser de novo aquela menina acostumada a ler
livros e brincar no balanço da quadra às duas da tarde.
Saudades de casa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário