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terça-feira, 25 de outubro de 2016

Nunca estive só


Todo domingo eu fazia tudo  quase tudo igual. Acordava depois das onze da manhã, sob as reclamações dos meus pais. Ia até a área de serviço, coçava a orelha dos gatos. Via minha mãe aprontar o almoço e recusava o café da manhã. Sentada na cadeira de plástico ou encostada na mureta de cimento, observava meu pai dar banho no cão, cada dia mais magro.

Depois do almoço, sempre regado às divergências políticas entre painho e eu, corria para o quarto. Afundava na cama e em algum livro que retirava da estante vermelha; às 15h, cairia no sono ou mergulharia nas profundezas da internet.

Meu pai sempre dorme aos finais de semana. Invariavelmente. E minha mãe estava só, com a filha única sempre muda e o marido, assíduo visitante da terra de Morfeu. Ficava lá, na rede, a gastar o domingo inteiro frente à televisão. Ela, mulher que eu sei tão cheia de vida e acolhedora.

A verdade é que eu nunca vi a solidão da minha mãe. Nunca enxerguei porque não precisava. Porque enquanto eu me orgulhava de ser tão introspectiva e taciturna, o silêncio da minha mãe não tinha saída.

Nunca compreendi a solidão porque a minha era rodeada de gente que me amava. Porque nunca estive verdadeiramente só.

Agora, meses demais e quilômetros demais e saudades demais e ansiedade demais e incertezas demais, tudo é claro.

Ainda assim, como pedir desculpas. Como dizer: mãe, desculpa por ter te silenciado?

Longe, me agonio ao vê-la sem ter com quem conversar. Agora, quando sei que eu deveria estar lá.

Agora, quando eu sei...

"Mas sabe como é difícil encontrar, a palavra certa, a hora certa de voltar..."


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