Vale jogar no milhar, centena ou dezena. No bicho preferido ou com o qual você sonhou. Para os chamados “cambistas”, o que vale mesmo é a aposta
- Coloque R$ 5 no cachorro. Bota aí, dezena.
- Coloque aí, cobra!
- Pode colocar borboleta, seu Manoel.
Edu Lobo, Julio Iglesias, um trio nordestino de épocas perdidas, certa Alcione muito mais nova, de cachos longos e avantajados. Os rostos de uma juventude há muito passada enfeitam a cigarreira empoeirada, perdida na subida da Avenida Rio Branco, no coração da Cidade Alta. Aqueles que por ali passam tão concentrados em vencer o sol e a ladeira não notam a minúscula cigarreira em vermelho e branco; não fosse o letreiro que anuncia os resultados de cada turno, passaria totalmente despercebida até para os mais assíduos apostadores do popular “jogo do bicho”.
Brotando no meio da calçada, a cigarreira é uma mistura entre casa de apostas e sebo musical. À frente dessa mistura, ou talvez no centro dela, está o aposentado Emanoel Bezerra, Seu Manoel, de 78 anos. Um dos mais antigos cambistas da cidade, Manoel trabalha com jogo do bicho há 53 anos, e foi um dos primeiros a implantar os jogos da Loteria Federal na cidade. “Trabalho para a Paratodos Correia há mais de 50 anos, antes para o pai e hoje para o filho, Luiz Correia Andrade. Trabalhei por muitos anos na Ribeira, mas já estou no Centro há nove anos”, conta.
Seu Manoel viu os anos mais ricos da Ribeira – da década de 1930 a 1950. Nascido e criado no bairro mais antigo de Natal, também presenciou a efervescência comercial do porto e da Rua Chile. Antes de virar apontador de jogo do bicho, trabalhou em quatro firmas, empresas que representavam a venda de sal e da ração para gado. Isso entre os 18 e 20 anos. Os olhos brilham com a lembrança daquela época – é capaz de narrar com detalhes todo o percurso do bondinho da Ribeira ao Alecrim. Em 1956 foi para a aeronáutica, mas não era o que queria. Saiu sem grandes perspectivas para alguém com os estudos até a terceira série. Foi quando descobriu a Loteria Federal – a primeira loteria fundada no Brasil-, e desde então não deixou mais.
Foi nesta época que conheceu uma das figuras boêmias que se tornaria símbolo de Natal – o Zé Areia, ou Bufão da Areia, que animava a cidade com anedotas afiadas. Seu Manoel é um dos poucos remanescentes daquela época que cultiva na memória os “causos” de Zé de Areia. Por isso, foi uma das fontes utilizadas pelo jornalista potiguar Paulo Augusto na procura de informações sobre Bufão. “Eu sou um dos poucos que ainda lembra os casos desse homem. Sou capaz de contar todos aqueles que estão neste livro”, explica, com um olhar de relance para a obra. O livro, lançado em 2009, é um dos grandes orgulhos do seu Manoel, e figura num lugar privilegiado, entre tantos nomes famosos gravados em vinil e aglomerados nas paredes estreitas.
E é nesta pequena cigarreira, desafiando a lei da física segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, que Manoel desfia também a seu amor pelo vinil. Dono de uma grande coleção que adquiriu aos poucos, o cambista diz que uma das grandes dificuldades é que as pessoas não querem pagar o preço por uma raridade. “Aqui eles podem guardar o som, depois passar para um CD. Se forem procurar nesses sebos de música é R$ 15 ou 20”, explica. Na cigarreira o vinil é vendido a R$ 5.
- Tem o resultado de ontem aí?
- Azul ou vermelho?
- Azul.
- Ah, foi borboleta.
A cada momento aparece alguém para conferir o resultado do jogo, fazer uma “fezinha”, pedir uma dica sobre o animal a ser jogado – ou apenas para papear com aquele senhor de olhos azuis francos e sorriso desdentado. Uma, duas, três vezes ao dia as “fezinhas” acontecem – afinal, como todo brasileiro, natalense não desiste nunca. Seu Manoel passeia com os olhos no papel, faz as contas, soma os trocados. A conta é feita mentalmente, o dinheiro cuidadosamente guardado, fecha a banca às 15h30 religiosamente, quando vai buscar o resultado da tarde, na central da Paratodos.
Cabelo branco e ralo não é motivo de vergonha – talvez envergue a boina quadriculada mais por gosto do que por qualquer outra coisa. Já tem a coluna curvada pelos anos e por uma hérnia; a estrutura um tanto o quanto delgada para um homem que se recusa a parar. O cigarro e o café estão lá, fiéis escudeiros desde as 07h30min, quando abre a cigarreira. “Tenho que vir para cá para apurar um pouquinho mais, não dá para ficar só na aposentadoria. Também não gosto de ficar parado. Só deixo de vir quando Deus quiser. Enquanto puder trabalhar, eu vou trabalhar”. Os 12% que ganha de comissão complementa a renda da família – cinco dos dez filhos que teve ainda moram com ele, além da esposa, com quem também é casado há 53 anos.
Mas Emanoel não é daqueles que reclama. Mesmo em todos esses anos, conta que nunca deixou de fazer sua própria fezinha. Quando pergunto se tem algum truque, ele diz que apego a bicho ou a número é bobagem. “Faço minha fezinha. Se jogo e não tiro, não tem problema. Só posso mesmo ter a fé de tirar ou de perder, só isso”, conta com um sorriso brincando no rosto
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