segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Terminal: última parada
O APOSENTADO JOÃO Carneiro Neto, 74, aperta com firmeza o corrimão da rampa de acesso como se tentasse, com esse esforço, garantir que não lhe escape também a vida. Ex-caminhoneiro, Carneiro Neto
era acostumado a estar no comando, dirigir as próprias escolhas. Os fi lhos nunca o viam de bermuda, que dirá em uma bata que pouco lhe cobre o corpo. Agora, algumas escolhas não são mais suas. Este senhor de bigodes ralos luta há oito anos contra o câncer de próstata. Ele é paciente terminal da “Clínica da Dor”, do Hospital Luiz Antônio, unidade da Liga Norte-Rio-Grandense contra o Câncer.
A vida de Carneiro Neto se resumiu, nos últimos anos, a números. Foram duas cirurgias, três raspagens, quatro sessões de quimioterapia e 64 sessões de radioterapia. A doença estava controlada, até que no dia
20 de dezembro de 2012 ele precisou voltar ao hospital. Passou as festas de natal de ano e o aniversário, no dia 8 de janeiro, na enfermaria masculina da ala de oncologia do hospital, com outros seis enfermos. Após um mês de internação, a diferença é que, agora, não sente mais dor.
Carneiro Neto tem recebido o acompanhamento da Clínica da Dor: ambulatório da Liga criado no início de
2012 que tem como foco oferecer cuidados “paliativos” para pacientes em estágio crônico ou terminal. O objetivo é amenizar a dor do paciente através de medicamentos ou, muitas vezes, oferecer suporte mesmo quando não há mais esperanças quanto à terapia curativa. A médica Anny Hellen Albino, responsável pela Clínica, faz o acompanhamento, em média, de 48 pacientes por semana.
“Estou há oito anos lutando contra isso, mas estou satisfeito. A vista de tudo o que eu passei, eu virei um menino”, declara Carneiro Neto, que viveu da agricultura, viajou pelo Brasil dirigindo caminhões por quase 20 anos, e teve cinco lhos, sete netos e duas bisnetas. Apesar do sofrimento, o seu entusiasmo é contagiante. Não somente é ele quem lembra à filha de tomar as doses de antibiótico, como também insiste em fazer passeios diários ao pequeno jardim da ala de cuidados paliativos. Ajuda de terceiros só quer mesmo para se levantar. Ele ainda procura estar no comando.
“Já disse a todo mundo lá em casa para não se preocupar comigo. Eu pre firo fi car aqui para ficar saudável do que levar doença para casa. A saudade da minha velha (esposa) bate de vez em quando, mas eu vou car
bom”, diz. O aposentado conheceu dona Mariquinha em 1957, em Bento Fernandes, interior do Rio Grande do Norte. “São 53 anos de casamento, graças a Deus. Ela é o amor da minha vida”.
Mesmo encarando a doença com positividade, o aposentado não tem medo de enfrentar o destino que lhe
está reservado. Carneiro Neto não possui os dois testículos e a próstata. Usa fraldas devido a uma incontinência urinária. Por mais que esteja otimista, ele aceita a possibilidade de morrer. “Eu não tenho medo
nenhum de morrer. Sendo da vontade de Deus e se ele quiser me chamar, eu vou. Cada um tem a sua hora de morrer”, anuncia.
O entusiasmado riso-e-tosse do aposentado arranca sorrisos de todos que ouvem um trechinho da conversa, por mais mórbida que ela possa parecer.
REVOLTA
Já a agricultora Ivanilda Belarmino França, 48, encara o câncer com uma dose de revolta. Raiva não só por
depender de terceiros para ter renda, mas para ajudá-la a fazer qualquer outra coisa. “O pior da doença é que ela te faz dependente. Eu vivia para a agricultura e agora dependo das pessoas para poder lavar uma panela”, declara. Dona Ivanilda luta contra o câncer de mama há três anos. Extraiu uma das mamas há um ano e oito meses.
A insatisfação de dona Ivanilda, moradora de Pedro Velho, distante a 71 km de Natal, é fruto do cansaço da luta. Quando descobriu o nódulo no seio direito, em 2010, ela precisou de doações para bancar a biópsia e os primeiros exames na capital. Depois começaram as difi culdades financeiras, pois a Previdência Social (INSS) só lhe garantiu dez meses de benefícios.
“Voltei para renovar a pensão duas vezes e me disseram que eu já podia trabalhar. Eu estava em tratamento e perguntei ao atendente se ele não ficava doente, se não achava que também ia morrer um dia”, conta.
A doença acabou voltando com força total há um mês. Na véspera de Natal, dona Ivanilda precisou ser internada na Liga devido ao acúmulo de secreções no pulmão. Agora a agricultora voltou a ocupar
o leito número 10 do hospital. Para ela, a luta é diária, mas não pensa em desistir. Ivanilda mantém o rosto impassível – só a voz treme ao falar sobre a doença. “Para quem é pobre, a luta [contra o câncer] é sempre
pior. Eu fiz essa cirurgia, mas preciso voltar para trabalhar no interior e lá nem sempre tem estrutura", revela.
[em breve a continuação]
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